sexta-feira, outubro 19, 2007

Da vida real...

Constatei que, na net, os artigos que abordam assuntos do quotidiano têm poucos leitores ou, no mínimo, poucos comentários, a menos que contenham pormenores sórdidos, preferencialmente de natureza sexual. Nada a assinalar. Cada um lê o que lhe apetece e a mais não é obrigado.

Não resisto, porém, a contar a história, recente, deste amigo meu. Não porque seja extraordinária, mas exactamente porque é vulgar. Talvez demasiado longa para o blogue mas de quando em vez lá calha.

O Miguel, que é empresário de um ramo que vive, hoje, momentos difíceis vai-se casar. E com grande pompa. “É a primeira vez que me caso, por isso vai ser com tudo a que tenho direito”, diz ele. Nada de novo, claro. Haja dinheiro.

O Miguel, de quem tinha perdido o rasto até há uns meses, viveu uma relação de 15 anos, nada de matrimónio – por uma questão de alergia –, da qual tem uma filha. A relação acabou, não sei se de morte natural, ou se por causa da Silvana, a loira brasileira (e até bonita, e até simpática) que conheceu na net.
Ao fim de algum tempo, três anos, resolveram ambos que o melhor era ela vir mesmo, com filha e tudo, viver com ele. Estava tudo a correr muito bem, até trabalhavam juntos e tudo. De repente, conta ele, “descobri que afinal não sentia nada por ela. Em Maio achei que tinha de mudar a minha vida. Já não se passava nada.”

Agora vai casar-se com a Vanda. Rapariga bonita (o tipo escolhe-as a dedo, deve fazer casting), divorciada há tantos meses quantos os meses da criança de que é mãe. O papá achou que não era bem o que se pensava, essa coisa de ter miúdos com fraldas para mudar.

Ontem conheci a filha da Silvana. Achei curioso o trato de “pai, dás-me dinheiro para ir comprar um gelado?” e “Sabes? Já trato o João por mano. E a minha mãe não se importa que chame a Vanda de mãezinha. Por isso agora é mãezinha”, dizia ela.
O Miguel olhou para mim. “Que queres que faça?”, disse. O Miguel continua a pagar o apartamento onde elas vivem. Ao todo despende mais de 500 euros em renda, comida, educação de uma miúda que não lhe é nada, a não ser afectivamente. “Adoro a miúda mas não sei quanto tempo vou aguentar isto”, lamenta-se. A Silvana está a trabalhar a meio-tempo, e recentemente. Faz umas fotos num colégio, passa a ferro, enfim, vive de expedientes.

A Vanda é a tal. São sempre, digo eu. “Sabes o que é teres a hipótese de ter aquilo que sempre quiseste?”, pergunta. “E o miúdo é um espectáculo”. E mostra-o numa miscelânea de fotos no desktop, uma montagem da filha, a primeira e única (?).
Acredito que seja. Há sempre alguém que nos toca de tal forma que é impossível voltar atrás.

O Miguel vai-se casar. E tem uma preocupação. É que vai perder o estatuto de solteiro. Este e outros contornos da história do Miguel pouco importam.

Eu, por mim, fui espectador de um fenómeno que confirma que a genética é cada vez mais relativa, e pouco importante, no que toca aos afectos entre adultos e crianças.
Aparentemente os legisladores ainda não deram por isso.



Digo eu...


(Foto: Pilar Mendes Dias)

7 Comentários:

Blogger Menina da Lua disse...

:) Ah grande Miguel! Haja paixão! AHAHAH Mas, sim, tens razão quando dizes que os afectos não vêm com código de genética! Há uma expressão que eu acho deliciosa na adopção: "grávida no coração"! Beijo meu querido

10:43 da tarde  
Blogger carpe vitam! disse...

Poucas pessoas ainda acreditam numa relação para o resto da vida. Será que a mudança é mais fácil que a renovação? É com certeza mais exigente do ponto de vista emocional, gerir os afectos assim, de uma forma descartável. Mas depois, é curioso constatar o quão enriquecedor pode ser se a gestão for conseguida. Mas isso, parece-me, é um equilíbrio muito difícil de manter...

10:38 da manhã  
Blogger Peter disse...

Começas com um facto:

"Constatei que, na net, os artigos que abordam assuntos do quotidiano têm poucos leitores ou, no mínimo, poucos comentários, a menos que contenham pormenores sórdidos, preferencialmente de natureza sexual. Nada a assinalar. Cada um lê o que lhe apetece e a mais não é obrigado."

E terminas com outro:

"fui espectador de um fenómeno que confirma que a genética é cada vez mais relativa, e pouco importante, no que toca aos afectos entre adultos e crianças.
Aparentemente os legisladores ainda não deram por isso."

De permeio, as declarações da escritora italiana Romana Petri "("Tive de o matar", Cavalo de ferro), moradora numa casa na zon do Castelo, onde passa largos períodos:

"Em Itália uma relação amorosa dura em média 3 anos, depois disso é complicado andar em frente."

3:43 da tarde  
Blogger _aifos_ disse...

Olhar atento esse teu!

9:35 da tarde  
Blogger herético disse...

dizes tu e eu confirmo (por entreposto casal): filhos são aqueles que a vida nos coloca nos braços...

abraço

3:59 da tarde  
Blogger Jotabê disse...

nesta busca incessante do "nosso" equilíbrio emocional e amoroso, "a/o tal", sobram, filhos legítimos ou não, adoptados ou por afinidade, sobram seres uns com mais, outros com menos defesas. e o importante é encontrar o equilíbrio, o emocional e amoroso, ...

o resto que se lixe..

mas será sempre assim e cada vez mais descaracterizado, da normalidade, que não há, pelo menos nestes casos, e os afectos, as famílias, os casamentos, etc., vão sendo também eles cada vez menos emocionais...

nada a fazer..

aquele abraço

9:05 da tarde  
Blogger isabel mendes ferreira disse...

dizes e dizes bem. com o teu habitual senso comum...tão raro...

e a Net não é lugar mt "habitável"...:) e Tu fazes dela um lugar lavado.


beijo.

7:32 da tarde  

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